Vértebra 55




Dc4 o giro ou a bomba de imunidade ou um piano e uma singer de pedal ou o calango de Iñigo


 

Outro final de ano. E assim era. Os fogos tingiam o céu de Cidade de Deus. Mais um começo era anunciado, esperanças depositadas na cauda do boto. O rio Amazonas sussurrava tens febre tens febre tens febre. A ideia de evolução e progresso suplantava, por instantes, o descaso e a descompostura. Só ficava triste e desesperançado bem, todo mundo andava desse jeito, a salvação já não era mais assunto de roda de seresta, embora muitos, naquela noite, respirassem melhor após agoniada contaminação. A vacina viera e, ao que tudo indicava, as coisas iriam entrar nos eixos durante os trezentos e sessenta e quatro dias ulteriores.

 

A flor do lisianto que um menino deu a sua irmã soava triste pelos dedos do regional. Por alguma razão que desconheciam, Jovino não apareceu naquela noite de ano bom para tocar. O rapaz andava diferente, pisado, desfolhado. Corria a boca enlameada que ele se apaixonara por dama casada, notável nas mídias, e que fora por ela gentilmente recusado. Depois de tocar em jantar literário, estivera a vagar pelos bares da Getúlio, em desacorçoo. Mas isso era a língua ferina, que não admitia óperas ou literatices. Qual a história? 

 

Isi'po não soube mais de Jovino após a leitura daquele email de ruptura, para muitos, atitude covarde. Não pode mais anotar um pingo sequer em seu diário depois disso. Contentava-se com as aulas das letras, estudava os clássicos, os libretos, as gramáticas, distraia-se ao pedalar. O conto que publicara, apenas fogo de palha. 


Como a mãe, Isi não era muito afeita a saudades que culminavam em tragédia. Só precisava entender.  Xaxim Verdadeiro lhe ensinara com muito carinho a conter os apelos do corpo. Como Byr não sofrera com os do coração, deixava estes assuntos para Jade embalar. O homem era um mel com contações e sempre viria a noite seguinte, a continuação dos episódios amoráveis, a dar tempo à alma da menina cipó. O turco andava acenando o próprio brio ao professor de filosofia, Jean Boudel, um francês que lhe demonstrava algum interesse. Ventos novos, humores novos, novas Cote d'azur.

 

A vida em Manaós, aparentemente, entrara em sintonia com os rios. Xaxim Verdadeiro a trabalhar,  uma clínica de acupuntura, onde João Claro tratava as hérnias de disco. A família reunida em sossego oferecia opões de cura. O velho Selim ligava sempre de Eirunepé. Tinha montado uma central de radio amador na capital, o contato com o mundo. Isso era razão para grande parte da vitalidade de João Claro. 

 

Outra nova para os tantos personagens dessa trama era o sucesso com os estágios. João Claro, genial, andava contente com a docência. A criançada do Colégio Amazonense se divertia com ele, aprendia com facilidade e adquiria, por encanto, apreço pelos livros, por idiomas diferentes. A Internet fez de João expoente nas aulas online. O professor era versátil, inventivo, auxiliava também colegas de profissão  a usarem ferramentas da inteligência artificial com humanidade. No mês de fevereiro do ano que nascia, viria a primeira experiência presencial para João, coroa do processo de inserção social. Bons começos, tensos começos. 

 

No terreiro, Oxalá andava saudado com linho branco, lírios d’água e cerimônias de limpeza. Ceição e Pedro Kambamy foram lavar seus pertences, pediram pelo retorno de Jovino à paz da Música. O inhame pilado foi oferecido ao orixá com devoção. Os pais tinham pilão em casa, Ceição preparou a refeição do filho. Lembrou-se do ex marido, chorou. Temia pela vida do seu menino. A mãe combinou sabores e unguentos, uma bomba de imunidade. 

 

Quando Jovino enfim voltou da devassa, alcoolizado, um tanto agressivo, Ceição levou a mão paciente às costas do músico e o induziu a girar sobre seu eixo. Ele foi girando, girando, girando, até que a sombra desencostou e o rapaz caiu no meio da pequena sala. Pedro Kambamy tinha ficado do lado de fora do aposento, a pedido da esposa. Sofria com aquela dor. Entoou, dentro do peito, Oxaguiam djareô éru malá djareô éru malá djareô éru malá djareô. Mais de cinco horas a sessão durou, até o rapaz finalmente dormir. Não é bom executar o procedimento em casa, mas a urgência urgentou. 

 

No sonho que se abriu, Jovino viu a infância, pode se despedir. Viu o Rio Juruá, viu o pai estendido, o corpo crivado de balas, uma lata de brilhantes esparramada, viu Betinho no alto do Pico da Neblina, a receber um filho desgarrado, Viu Heloana estrela, de mãos dadas com a Ema. Por último, viu Isi’po diante da folha branca. Baixou o lápis, para que ela escrevesse a história. 

 

Ceição havia ganhado da comunidade uma máquina de costura antiga. Pedro instalou uma traquitana muito ajeitada na palafita, para que a Singer funcionasse a luz. Ali, nos momentos de folga, a artesã costurava colchas de retalho, cada gomo bordado a mão, com uma entidade do Candomblé. Cada peça concluída, uma a cada mês, ia de presente para um orixá ou para um amigo em desalinho, ou mesmo para um nascimento, casamento. Mortalhas, essas eram cosidas à mão, bordadas com motivos da natureza. Ceição teceu com fio branco um pano desses para cada membro de seu conhecimento. Ela sabia que tudo estava em constante movimento e que morrer era uma das estações.

 

A melodia soava langue no auditório. Só a mão direita a entretinha. Era a flor do lisianto que um menino deu a sua irmã. Isi teimou com Jade e foi ao teatro. Sentou-se na plateia central, precisava ver-lhe o semblante, falar-lhe. Jade a havia prevenido contra prováveis humilhações.  Ela se arriscou. Esperava para ver Jovino no ensaio da manhã. Muitos músicos ainda denegavam quanto a volta ao encontro presencial, não se sentiam seguros, as máscaras eram incômodas. 

 

Não demorou muito, Isi escutou dois colegas a comentar em sussurro está entubado não, não está bem. Cinco dias de UTI, os prognósticos são avessos. Não, não aceitou vacinar-se. Mais um pouco, a índia escutou o nome do enfermo. Sem acusar perturbação pediu licença, disse a que veio e perguntou em que hospital ele estava. Os músicos avisaram que não era permitida visitação. Isi agradeceu, desejou-lhes as águas do Amazonas, límpidas e sãs. Deu de cara com Uraci à entrada do saguão, a queimar suas lágrimas. 

 

Isi’po pedalou durante muitas horas, conheceu mais de Manaós do que todo tempo em que morava ali. Passou diante do hospital várias vezes, parou a cada uma delas, para contar que a narrativa se avolumava, que as páginas eram detidamente corrigidas, sopesadas, enfeitadas da flor do lisianto. No meio das lágrimas, lírios d’água, Isi’po dizia para alguma daquelas janelas que todos estavam torcendo pela vida, pela viola e que ela o amava, de todo coração. Que a mãe Ceição lhe tecera a mortalha com todo carinho, bem como a colcha de seu casamento, caso lhe fosse outorgada moratória. Isi’po lhe desejava um amor musical, a altura de seu dedilhado. Filhos. Essa arenga fez bem à indiazinha, menina outra vez, cercada de iñigo. 

 

Antes de voltar para casa, Isi ainda pediu que Jovino despedisse a moléstia, mesmo que fosse para morrer logo depois, já ao lado de Ceição. Só dessa forma o músico poderia ser enterrado com as honras que merecia e não na cova comunitária. 

 

Do outro lado do país...


Noite quente, novo encontro com Kauany. Na cozinha do capelão, o jantar  pesava no estômago de Aín. Ele havia tomado a mais deliciosa sopa de tartaruga de toda sua vida. Depois de uma garrafada a base de láudano e um pouco de cafuné, dado a bruteza, perto do fogão a lenha, tinha sentido tantas mãos, tanto estapear que desmaiou, convulso. O capelão, na sala, lambia os beiços amanhã teremos pão fresco. Metade da noite foi esfregada na pedra da cozinha. Ainda não tinha chegado a vez de Kauany, a paciência lhe geraria o filho tão desejado. O frei arrulhador precisava estar pronto, precisava pedir. Com a cabeça em turvação, a garrafada a fazer efeito, Aín enxergou Bar’do montado no calango de Iñigo, faceiro. O duende lhe acenava com os Exercícios Espirituais[1]. Aín viu também Isi’po a chorar, debruçada sobre o peito do amor que partia, todo envolto em mortalha branca. Quando despertou em seu catre, lavado e de ceroulas, sentiu saudade do neno que esquecera. 

 



[1] Livro atribuído a Santo Inácio de Loyola

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