Vértebra 53
Dc6 ou ligamentos ou Sertão de PE, Salgueiro, igreja de Santo Antônio ou Raimundo que se perdeu do pai e ficou sentado sob a árvore ou A cabeça de Zumbi
O guerreiro preto plantou muito caju na alma de sua gente cariri. Implementou ligamentos. Quem escapou das pestes, do bacamarte e da servidão foi pondo frutos nas árvores, ovos nos galinheiros, e filhos descalços para continuar o povoamento do mundo. Milhares, milhões de histórias para contar. Por que contar? Pois não tem fim a riqueza da contação.
Mesmo a cabeça decepada do Zumbi, plantada em aldeia para causar terror tomou ares de cobre, virou símbolo de despojamento, superação, dom. Claro que uma falta perene estava enrustida nos porões íntimos, que eram navios negreiros mais antigos que o sonho. As mulheres quilombolas não deixaram faltar canto para Oxalufan. E ele permitiu os aprimoramentos dolorosos. Ficou preso, foi flagelado. A pele brilhosa dos caboclinhos saltava por toda Gaia, cantando a chuva.
O opaxorô deu de acompanhar Aín, depois que ele decidiu deixar Seu Tonico com os indiozinhos Fulni-Ô. O burrico, agradecido por tanta aventura, fungou no cangote do frei. Iara lhe ofereceu o cajado em troca, para que a caminhada o conduzisse ao olho que faltava.
Parado na praça do distrito, diante do busto de Zumbi, o frei Aín parecia cansado. Bar’do temeu que ele mergulhasse novamente em seus caldos lodosos, mas era o coração que chamava conforto, quem sabe um porto. O frei, sabedor da história de Zumbi se sentiu ninguém, homem comum, carente de história. Ele não viu ou não quis confrontar o Tamõi. Temia ter de explicar seu ato irresponsável, seu conúbio desleal. Em meio a um mar de saúvas, desprovido de vontade para tomar condução, Aín permaneceu na praça vazia.
Uraci mal se espreguiçara. Fazia calor. Havia uma torneira no coreto. O homem, menos santo do que esperávamos, nós que o seguimos desde o início dessa luta, se abaixou para beber. Ali, diante do líquido são, agradeceu os pés, que lhe serviam tão bem. Molhou-os, massageou as solas. Naquele momento, teve vontade de pedir ao duende que lhe cantasse uma das suas bullerias, mas até para isso andava vazio. Dera todos os seus versos. Notou que o burrico e a imagenzinha de Antônio eram-lhe veia poética. Em eles ficando para trás, ficaram também as quadras. Melhor assim, as moças faziam lembrar Isi’po e ele doía de imagina-la passando securas. Gostara tanto de embalar aquela joinha. Ele fora gente somente naqueles instantes.
caapomonga, louco ou erva-do-diabo
Recriminar-se, nessas alturas da vida, era aumentar ainda mais a carga. Carga, canga, Aín desviava o pensamento cada vez que caia nessa associação. A manhã foi iluminando o vilarejo e alguns sertanejos começaram a transitar, com seus balaios, cães, até burricos. Um senhor desdentado lhe estendeu um pouco de limo da costa[1]. Aín lembrou-se, por alguma razão, dos seres pândegos, que aprontavam escaramuças infantis. E então veio Tijuca à memória, todo força, todo violência, todo desvio de comportamento. Se a canga lhe parecia aterradora, o penacho na orelha era incêndio, eram lombares moídas, era o torcer elétrico da lande, era o leite bebido com sofreguidão. Era oásis. Caapomonga, era como ele estava, ali naquela praça. Assim desorientado, Aín pôs-se a andar. Em uma alameda, viu um jumentinho solto e resolveu conduzir o animal até o coreto, imaginando ser lugar mais fácil para o dono o encontrar. Foi mal interpretado e, como resultado, passou o dia na delegacia, uma casinhola minúscula perto da igreja. Ninguém buliu com o aveiro. O opaxorô ficou no coreto. A confusão fez Bar’do sumir pelo primeiro beco que encontrou. Aín só foi solto quando Josué veio, burrico na corda, para avisar que o bicho escapava a toda hora e que podiam soltar o coitado do preso.
Aín pediu algo de comer e também roteiro. Dirigiu-se, sozinho, a Salgueiro, cidadela não muito distante. Foi despojado de tudo, menos da sacola de juta. O delegado, achando-o um pobre diabo, não deu pela carta do bispo, toda amarrotada e manchada dentro daquele saco imundo.
O frei era um trapo ambulante. Encontrou um riacho no caminho, desnudou-se, lavou-se por muito tempo. Ao sair do banho, teve nojo de vestir as mesmas roupas, mas não havia outro jeito, a menos que improvisasse uma tanga de folhas, amarrada com cipó. O cenário da caatinga lhe arranjou poucas opões. Em trajes primevos foi que Aín, careca, varapau, seminu, a sacola do lado, bateu de madrugada à porta da sacristia da Igreja de Santo Antônio. Chovia canivete, oito meses sem cair uma gota. O capelão, ao abrir a porta, viu no sujeito humilhado, com a carta para o bispo estendida, um sinal de redenção. Era o próprio Raimundo sentado sob o salgueiro, a espera do pai. Aín, vítima de uma espécie de acesso de autopiedade, atirou-se aos pés do padre, convulsionou e perdeu os sentidos.
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