sexta-feira, 17 de março de 2017

cantigas de fiar


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Cantigas de fiar
                Para Cida Sarmento


1. Pensando moço bonito alentei
Que a vida é mesmo limoeiro, alentei
Laranja, rosa, tintureira, alentei
Um verso quebrado de alveiro, alentei

Pensando moço bonito alentei
Que a noite é mesmo sombreiro, alentei
Ciranda, vaso, ladeira, alentei
Um verso escavado em braseiro, alentei

Vale cantar a cantiga de entretecer
Dizer o mais moliço espinho
Enlutar quando ainda se vive um bem querer

Vale cantar a cantiga de entretecer
Armar o mais tenso jereré
Esvaziar quando ainda se quer beber

2. Sobe a carrocinha cheia de flor
sobe ladeira, sobe ladeira
a pedra roça a roda
corrieira, corredeira,
faisca, sombreia

Sobe a carrocinha cheia de flor
cabeleira, cabeleira
a correia roça a crina
cavalin', galopeira
faisca, matreira

Sobe a carrocinha cheia de flor
Senhora de saia, cismada
olha o mundo que nem se partisse
E as flor', flauteia
algum amor cheio de saudade

Sobe a carrocinha cheia de flor
e o moço bonito dá co'a mão
leva os lírio do campo
leva as açucena, os jacinto
e algum galin' de alecrim

Sobe a carrocinha mirrada de flor
e o dia passa assim lilás
margarida, miosótis, dente de leão
Senhora de saia, cismada
cabelo cheio de nó

3.Pensando São José,
pensando na vida
na mesa em construção
O dia virá
o de subir nela
na vida
pra desbastar o cantinho
de tempo
que a gente deixou passar




4.“Não nos enganemos
Nem enganemos a ninguém”
Tudo passa a passos firmes
Recortes recheiam as gavetas,
Inúteis artefatos, relíquias, flores murchas
Silêncios cheios de por dizer, cicatrizes
“Não nos enganemos
Nem enganemos a ninguém”
Tudo passa a passos firmes
Encolho os ombros, o que me dá uma colcha
Com ela, a colcha, aqueço meu coração partido
E a ópera escuta os tacos dos sapatos, indo, indo, indo          
“Não nos enganemos
Nem enganemos a ninguém”

5. As mãos, arrojando o ar
Tocaram a matéria fria.
Os pés, há tempos
Sem a prosa de pisar
Permaneceram ali, sustados
Diante de duas mil estrelas.                                                                
A escuta dormiu.
E não havia amor suficiente                                                                            
Para atravessar, sequer de arrasto
Um monumento à ilusão
As mãos, arrojando o ar
Tomaram o lápis
E o verso, o verso, o verso...




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