terça-feira, 2 de agosto de 2016

Agosto eu gosto do gosto



                                  *foto de ari almeida


 2 de agosto



Ó terra, mãe gentil
Eu colho o teu laurel
Abro meu embornal
E puxo a pena de escrever-te
Vê, foi-se a valsa rimada
Qualquer tardia esperança
O fio dessa aleivosia
Deitou-se e não vai cantar
Ó terra, mãe gentil
Que vejo em meu dossel
Senão as tardanças
Árvores e réstia
Que o inverno legou
As intempéries
Os Ipês que florescem tímidos
Os boatos
Remexo meu embornal
E lá tenho broa dormida
Leite e mel
Os carros cruzando o Capanema
soam
Lábios cálidos
Da noite mal dormida
Sorriem
Largos
maleáveis
Ó terra, mãe gentil
Eu me nutro de beleza
Fotografias d’além do mar
Manuelinas cheganças
Loas a certa Inês
Uma folha do caderno em branco
Dá-me aceno
E estes esboços
Definem algo como suspiro
Ó terra, mãe gentil
Eu sinto saudades
Exilado em contratos familiares
Semente plantada em pedra
E profusão de floresta
Já nem sei se sou triste
Ou paródia
Cercanias, serranias, laredos
Solidão ou pó
Ó terra, mãe gentil
Eu colho o teu laurel
Abro meu embornal
E canto as canções de sonho
Inefável
Alado
E são
Mesmo sem a valsa rimada
Eu olho a fumaça dos autos
A tremeluzir
A junta dos meus olhos
É a cidade em tarde de sol
E os rebocos de calcário
Que escorrem dos vagões
As plagas de Valadares
Longínquas
São verdes, verdes, verdes
Eu escuto
No fundo das minhas andanças
A voz do outro
É como a lua que nasce ao meio dia
As metáforas já não me alcançam
Nem hipérboles, anacolutos
Desnudei-me
Tomo os versos e a pena
E um pingo de tinta fere tal palavra
Lavra
O mel está no fim
A tarde, avançada nos anos
Ruge autoestradas
Que descem loucas por um lado
E sobem aos trancos pelo outro
Ó terra, mãe gentil
Eu sinto saudades, já disse...

Um comentário:

  1. Lindo texto, Liane! Será que seria muita audácia eu tentar adaptar em uma singela canção?

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