domingo, 6 de setembro de 2015

nascer em setembro







6 de setembro



Re-penso, incansável, nos termos eu sou, eu não sou... em refugiados, polinização, politização,  policização, etnomusicólogo, educador musical, poeta, cantor, transgressor, opressor, oprimido, de direito, orfeão, salvacionista; em varredura acadêmica, assistencialismo, "a argumentação não se sustenta", Buda, filosofia, Sócrates, Jesus, malandragem, práticas musicais, projetos sociais, fala e escrita, música na escola, aula de música, acalanto, "para ontem", moralidade, "peixe fora d’ agua", periferia, urbe, periferia da periferia, romancista, psicologia social comunitária, políticas públicas, SUS, FAS, funk, potência de transformação, cravos, mucama, Tia Anastácia, Visconde de Sabugosa, rap, violino, esgoto, pés no chão, brincadeira de rua, criança cuidando de criança - já fui essa, com cinco seis anos era babá, da filha da vizinha, das primas. Cristóvão Tezza, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Patricia Mello, Ignácio de Loyola Brandão, Kolody. Portugal. Penso na falta de afeto, em carência, em loucura (parece que ninguém mais é louco, só eu), em espíritos afins, puros, reunidos nos seus grupos, em congressos de dois dias, feitos a clarim, no pessoal fazendo um som medonho, sirenal, lá na cantina, espaço público, belicoso, resistência, libidinoso, cultural, "uma raça uma face". Penso no  menino homem, um fidalgo, bom cantor... na plateia de encarnados contáveis nos dedos, desencarnados os quis ver, não me foi dado... nas três câmeras, nos acalantos...
Penso também, entrando no tema central desta crônica cotidiana revisada, na sereia de cordel, antiga estampa a simbolizar literatura, que mora no meu álbum de figuras, no meu jardim secreto, azul. Reconheço a sereia que canta em meu oceano íntimo, todos deveriam ouvi-la, ela está lá, no liquor de todos. Penso nas idealizações, na Iara das idealizações. Custo benefício de morrer ou matar. Ou perdoar. Mesmo sem esquecer. A sereia que sou é voz. Dos mitos, o de Orfeu soa bem. Embora eu reflita muitas vezes sobre a transgressão psíquica de devorar homens, e que os homens das minhas idealizações tenham estado no cais, e eu "a meio do mar, que me arrepia e foge"...  mais do que depressa oculto tal sereia, Iara só, que só queria ser amada... lá no silêncio naif dela, sossegada no meio do mar...toma a mão da criança morta e vai, quieta e azul...
Tenho uma foto, é como quebrar-se às rochas. Nada sou, nem simbolicamente sereia. Sou eu Ulisses. E nada. Ou um de seus marujos. E grão de areia. Ou sou sim, sereia, a que toma as crianças pela mão e as acalanta, quando as noites do ascendente em aquário assim favorecem. E talvez se falasse, nessa narrativa, em solidez. Ou nos estatutos de Virgem.

Aconteceu ouvir a voz
Coisa de um segundo
A canção se fez bússola
Lembrou-me de tempos alados
Afora a luz do dia, baça e trêmula
Nada entre o inciso e a coda
Tua voz acalantou meu sono
Outra sintonia, outro padrão.
depois, a lua apareceu
ocaso a meio, lilás ribeiro
pêndulo a golpear a décima nona hora
o desejo de encompridar a canção
retardou o pulso, imprimiu um terno
cantei só
o orvalho fez coberta nas folhagens
e as tornou vulneráveis
salpicadas assim, de estranho amor
pilhéria, pungente, alfinete
impune, porque poesia
nada que turve ou espante
há mansidão neste canto
outra sintonia, outro padrão.

25 de setembro

Nossa Senhora da lama
Nossa Senhora do rio
Nossa Senhora que adentrou floresta
E cunhou nas pedras limosas os caminhos das desovas
Nossa Senhora que banhou os mantos das entradas
Das demências, das fugas, das desavenças, das matanças
E os deu a São José para pendurar
Que plantou açucena sobre os sambaquis
E orquestrou o canto alegre das ararinhas azuis
Nossa Senhora
Senhora dos livramentos
Nossa Senhora da Anunciação
Nossa Senhora clemente e olorosa
Cuida de nos.
Cuida desse amor que eu pus no igarapé,
Na foz do Solimões,
Amor que eu embalo como quem embala um filho santo
E deixo a mercê do Teu amor.
Cuida de nos, Santa Mãe.
Conduz a nossa barca ao mar da redenção.

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