terça-feira, 4 de março de 2014

Tantos dias



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Tantos dias sem semear, regar, varrer, quarar...
Estava tudo no lugar, estava tudo bem...
So Lino não estava...
Havia um cheiro de úmido, desses que secam e deixam um rastro
entre triste e largado...
Abri as portas, choveu...
Fazer café para um e tão besta como a novela das nove...
Minhas mãos, repletas de afagar as costas de Dona Bene
aprenderam contigo, My Lord, a alegria de tocar em dia anterior...
Em minha memoria, a carta da Irmã Rosário
e o sabor do doce de abóbora nos lábios...
Oito mães e pais me acudiram, Angel Mar...o amor no ar, a me afagar,
ninho de camomila, enfim... Nem sei se eu chorava, ou gritava, ou rugia, ou morria, ou surtava...
Eles me tiraram rapidamente da sala de estudo e eu ainda tinha nos ouvidos a voz canora do senhor dos olhos verdes a contar a historia da mulher que fez o câncer... eu tinha ido ao Marcelo meses atrás, para dizer-lhe o mesmo... que eu fizera um câncer... a doce mulher de lapidar, a doce mulher da voz francesa, da clareza junguiana, atravessou-me e disse: cigana, cigana de longos cabelos, a rir e queimar de indecência, inocência, o que pensar? ... disse ela que havia uma fileira deles, homens a perder de vista, e eu a dançar com todos, em luxuria sem fim (lógico que entreteci a cena alusiva a minhas próprias emoções...)... Angel, Angel, aquele pedaço de espírito apartado de mim que descreveste, envergonhado, retirando os pedaços dos cães, cães pestilentos, cães danados, cães mortos... minha raiva morta, minha garra morta, minha dança morta, minhas pernas mortas... ou paralisadas, e o mesmo. O meu fel, a minha dor dos sete mares dantescos em abluções  ... e uma força quase pavorosa, quase atômica, a me aniquilar pelo meio... vá dar passes, vá urgentemente dar passes, dizia-me a mulher com a doença dos poetas, ah, mulher linda, que fizeste? Vá tocar os corpos das pessoas, disse-me ela, doce, doce, leve, leve... Vá tocar os corpos, nas biossíntese, nas vegetoterapias, nas terapias de toque, nos exercícios respiratórios, nos exercícios de canto... vá, vá oferecer essa fornalha que lhe queima as entranhas e que não e mais delas, que clama por chegar ao coração, ao córtex suarento, aos lobos temporais, ao ponto de Deus... como sublimar tal comoção, minha Emily Dickinson? Enfim, veio a noite, a nuvem, o orvalho, a grama, a solitude...
E o novo dia, e as novas historias. Uma vez Deus olhou para a Terra e viu o lavrador, que havia sido expulso do Éden, arando e triste. Deus teve compaixão do homem e jogou para cima um punhado de terra e desse movimento nasceu o sabiá . Que cantou. E o homem sorriu. E arou. E uma confusão de cobras, libélulas, meninos, estrelas, bolas cinza, nada, sinhás, prefeitos, e tanta gente pedindo um toque de amor... quantos abraços, beijos, afagos, lágrimas, casais, crianças, jovens em flor, ativistas, racionalistas, intuitivos, médiuns,  risos, ovações, palmas, prêmios, nuvens chumbo e calor... o homem calvo era o próprio amor... Jesus devia ser daquele jeito... minha mãe chinesa, meu pai italiano, tantas mães, tantas, pais de toda sorte e beleza, ate uma filha doce do coração e um genro do mundo, perdido como um guri de boné sem tostão ... amor longe, longe, longe feito Davi preso ao mármore, feito o filho mais moço apartado de seu pai e tornando a casa, amor desesperado de adultera defronte a Jesus, Jesus homem, Jesus aprendiz, Jesus no deserto, Jesus e o calice...
O amor e calvo, meu Deus. O amor e calvo, e Tao. O amor e ponto inglês em linho branco, cosido de florinhas vermelhas... é  a reconciliação com o eu profundo e os outros eus, com o fingidor, com o beijo nas bacantes, com a razão de ser da minha vida, com o passado, com a dádiva de Deus, esquecer... Com a lança espontando sem causa, com o excesso, com o monjolo e Galafura.
Tantos dias sem semear, regar, varrer, quarar...
Estava tudo no lugar, estava tudo bem...
So Lino não estava...
Outro dia esta por vir. Um gato espera.
Eu nem sei, espero o milagre da cura.
Termino este vendaval assim:
Toco o chão de confetes
o barro pegajoso toca meus dedos
crio com argila ruge
a foz da poesia,
razão da minha existência aqui
com a mao em prece
afago tua pele
num gesto numinoso
Tenho fome e desejo
as fibras do meu supracorpo se entorpecem de luz
respiro, respiro, respiro...



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