sábado, 2 de fevereiro de 2013

Mensagem a El Rei em dia de Yemanja


*descobrir Portugal



Curitiba, 2 de fevereiro de 2013:  Meu D. Sebastião, o Desejado: Decerto que encantou ao zoom dessa câmera a avo a desprender-se de seu envoltório, ao sol, no meio de uma tarde portocálida. Decerto que lhe chamou à atenção a senectude,  desleixada me vem, abandonada também, mas não se trata disso. Dorme,  porque o velho dorme em horas improprias ou próprias. De quem é velho e o corpo já lhe escapa e esmorece  no conforto do calor. Assim ando eu a dormir em horas vivas, e por isso me tocou tal estampa. Os Portugais do século ido me entranham a alma, como exilado em Pátria alheia eu, tão terra brasileira... Pode a ferida salazarista dormir em mim? E antes, que me da a chamar D. Sebastião?  Afã de loucura? Pura desesperação? Podia ser eu, ai na barraquinha sem guarda-sol. Podia ser eu a dizer do que não fui, ou fui, que não sei da opera a metade, já disse. E nada diria, além de parole antipsiquiatrica.  Deixo para dizer o que quer que seja a um novo flautista que vem para a banca de nossa armada. O Rei, um tanto Sebastiao, Diniz, vai saber?! trabalha com afinco, enquanto eu durmo em paisagem mais discreta, ao abrigo do sol. Caberia lembrar, com o olhar além, sobre as ondas, de chamar Dandara, odofiaba! Que tu protejas a velha que sou, o minha mãe do augusto mar.




 

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou ‘spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna
[Fernando Pessoa, “A última nau” (Mensagem)]

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da verdade
[Fernando Pessoa, “Horizonte” (Mensagem)]

D.SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?”

"A Antipsiquiatria, segundo Duarte Júnior (1986, p. 69), é uma proposta formulada pelos
psiquiatras David Cooper e Ronald Laing, a partir de divergências com relação à Psiquiatria
tradicional. A Antipsiquiatria se contrapõe à Psiquiatria tradicional no que diz respeito ao
conceito de loucura – uma doença psíquica grave que isola o indivíduo portador de
comportamento diferente da norma. Na Antipsiquiatria, a normalidade não é o avesso da
loucura, mas sim uma forma alienada de existência. Isso porque o normal é definido em
termos estatísticos: normal é o que a maioria das pessoas faz, num determinado contexto.
Se normalidade é definida estatisticamente, e se as estruturas sociais estão doentes, o
indivíduo normal é aquele que se adapta às regras opressivas da sociedade, que não as
questiona, que as aceita passivamente. O louco seria uma voz inaudita de resistência a
essas regras opressivas. Na realidade, perante o poder mobilizador da loucura, a morte não passa de
contingência física. Tal “divina loucura” é fonte de energia que leva o homem a ser mais do
que é, na sua contingência física feita de fraqueza. A morte é muito pouco e não é, de fato,
o que pode impedir que o sonho prossiga noutras mãos. Lind (1986, p. 481) observa
nesta poesia de Fernando Pessoa uma viva admiração pela loucura de Dom Sebastião e
um desprezo acentuado pelo homem “besta sadia”, que passa a vida sem ideais, sem
grandes projetos, contentando-se com o gozo materialista - o homem “normal”. A loucura
de Dom Sebastião soa como um sopro de esperança, uma possibilidade de ruptura com
a morte e a estagnação de um povo que conheceu a glória e a depressão. A loucura
representa o sonho, um mergulho no desconhecido e encantador mundo de sentimentos e
emoções que o poeta nos oferece em palavras e símbolos numa transcrição de seu mundo
interior. Dom Sebastião retorna do imaginário popular português como uma promessa de
rebeldia e resistência contra a alienação e a estagnação. Afinal, se não fossem os loucos
revolucionários ao longo da história da humanidade, muito de nosso avanço tecnológico e
científico não teria ocorrido. Só se muda o que não está bom e, por outro lado, toda
mudança provoca resistência e medo. Melhor que um “cadáver adiado que procria” é
pensar o homem como alguém que pode criar, amar, desejar, arriscar, enfim, viver e até
morrer por um ideal.(p.91- 3) "A LOUCURA REAL E VISIONÁRIA DE DOM SEBASTIÃO EM
MENSAGEM, Cladismari Zambon de Moraes, Mestre em Literatura pela Universidade Estadual de Londrina - PR, ANALECTA, v.5, 2004)

O ser e o tempo da poesia (BOSI, 2000)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ensaios

baú patrimônio  imemorial oxidação teus passos meus passos abstinência arco e chifre olhos plácidos camisa alva e p...