segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Diarios


*foto de Henrique Coelho, Portugal

Miguel Torga, poeta e romancista portugues, 1907-1995.





Coimbra, 28 de julho de 1977 – Ainda a proposito da nota de ontem. No fundo, a sociedade e os respeitos humanos acabam por perder o artista, exigindo-lhe a coerência dos que vivem a rotina dos dias. Dos que dão hoje os mesmos passos de ontem, e que darão amanha os mesmos passos de hoje. Se as vozes do mundo o deixassem ser só quem e, ele ate podia ser um poço de contradições. Natureza imprevisível, o pior que se pode pedir a um poeta e que seja fiel as suas palavras.
                                                                                                       Miguel Torga, Diários.  Vols. 13 a 16”

Conheci o gajo agorinha e já dele me encantei.

 Vou arremeda-lo, escrevendo um diário nos mesmos moldes:

 Diários 2013

Curitiba, 21 de janeiro de 2013. Teria a tendência hoje de vestir minha capa de mártir e sair por ai a pelear as nuvens. Nisso prefiro a leveza de Quixote. Não sei caro senhor, se estamos numa tormenta, à beira da falência ou se são mesmo as achas sociais a nos afrontarem as fuças. Fato, não há como competir com rotinas conjugais, fraldas ou qualquer demanda do gênero, embora eu tenha sido nessa vida excelente baba cheia de brincantes, arrumando os estragos de pais aluados com quebrantos, alimentação inadequada e sonoridade ruim no dormir e pudesse sim lhes ser útil em dias de canseira. Vai sobrar, no entanto, quem lhes tire o chapéu e murmure – quanta honra poder servir... Enfim, não foi para lamentar que me instalasse diante destas aguas. Em absoluto retiro os amores que disse, apenas arrumo as palavras sobre estrela de cinco pontas e passo a garantir-me justiça que, réu confesso que sou, cabe-me igualmente a misericórdia divina. Não sei se o amor da poesia e diferente do amor de alcova que não vivi, sinto que recorreria ao pesar de Miguel Torga neste caso. Que não e o caso de amargar-me ou despeitar-me por ver-te em outras plagas, cuidando das tuas coisas. Igualmente, deixo claro, abriria mão de tudo para que tua lide social tivesse maior coerência, por amor. Sinto pela arte, que vai pelas tabelas.

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