sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Outra caixa de preciosidades, onde dorme a palavra amavico

*foto de Bete Wanis - Museu de Arte Contemporanea RJ
"A casa do Oscar era o sonho da família. Havia o terreno para os lados da Iguatemi, havia o anteprojeto, presente do próprio, havia a promessa de que um belo dia iríamos morar na casa do Oscar. Cresci cheio de impaciência porque meu pai, embora fosse dono do Museu do Ipiranga, nunca juntava dinheiro para construir a casa do Oscar. Mais tarde, num aperto, em vez de vender o museu com os cacarecos dentro, papai vendeu o terreno da Iguatemi. Desse modo a casa do Oscar, antes de existir, foi demolida. Ou ficou intacta, suspensa no ar, como a casa no beco de Manuel Bandeira.

Senti-me traído, tornei-me um rebelde, insultei meu pai, ergui o braço contra minha mãe e sai batendo a porta da nossa casa velha e normanda: só volto para casa quando for a casa do Oscar! Pois bem, internaram-me num ginásio em Cataguazes, projeto do Oscar. Vivi seis meses naquale casarão do Oscar, achei pouco, decidi-me a ser Oscar eu mesmo. Regressei a São Paulo, estudei geometria descritiva, passei no vestibular e fui o pior aluno da classe. Mas ao professor de topografia, que me reprovou no exame oral, respondi calado: lá em casa tenho um canudo com a casa do Oscar.

Depois larguei a arquitetura e virei aprendiz de Tom Jobim. Quando a minha música sai boa, penso que parece música do Tom Jobim. Música do Tom, na minha cabeça, é a casa do Oscar."

Chico Buarque (texto escrito por ocasião dos 90 anos do arquiteto)


Sempre me encantaram as coletaneas de cartas. Ainda nao achei esse amigo das correspondencias. Por isso escrevo cartas para alguem. Quem sabe um dia esse alguem me responda.  
Enquanto isso, uma carta de Oscar.
   
 "Sussekind,

Venho acompanhando o que ocorre com a Alca, e, radical como sou, considerei protelatória e conivente a atuação do nosso governo naquela reunião. E gostei muito das declarações do nosso embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, tanto que, mesmo não o conhecendo, telefonei para ele com entusiasmo. Foi bom. Agradecido, ele mostrou desejo de nos encontrar um dia para conversarmos melhor sobre o assunto.

Fui informado de que a Internet divulgou que o Brasil encomendou a uma empresa russa, a Rosoboronexport, grandes helicópteros e armas de guerra. Surpreendi-me, indaguei se seria verdade, mas é melhor esperar para não sonhar no vazio.

Confesso que o problema da Amazônia não sai da minha cabeça, e, hoje mesmo, tive um encontro com um dos representantes da guerrilha da Colômbia. Já não se trata de um problema somente daquele país, mas também do Brasil e de toda a América Latina. O encontro não foi feliz. A convocatória era assinada apenas por estrangeiros _nenhum brasileiro. Não sei por que, isso me irritou. Disse que não assinava. Mas é claro que vou assinar. Fui eu quem desenhou o cartaz contra o Colombia Plan.

Revolta-me sentir como a figura de Stálin é deturpada, e o grande líder soviético comparado a um criminoso qualquer. E o que ocorreu com o meu amigo Eduardo Galeano serve de exemplo. Galeano pretendia publicar a minha entrevista do Jornal do Brasil na imprensa uruguaia _ idéia que deixou de lado, conforme explicou ao meu companheiro (Fernando) Balbi: "As considerações que o Oscar fez sobre Stálin não seriam bem recebidas aqui em Montevidéu." Era um amigo que queria me proteger.

E a campanha existente contra Stálin me pareceu mais grave e difícil de conter, considerando que muitos que o apóiam e dela participam são corretos, alguns, meus amigos e, não raro, pessoas mais competentes do que eu em questões dessa natureza. (...)

Um abraço,

Oscar"
E agora, o que dizer sobre Josef? 
Eu li a alusao do Chico sobre o beco, fui ler poemas e este pareceu-me daqueles bonitos, de ler no momento em que se joga o primeiro punhado de terra... fique bem nos jardins de Deus, Sr Oscar...
 
Paisagem Noturna 
A sombra imensa, a noite infinita enche o vale...
E lá do fundo vem a voz
Humilde e lamentosa
Dos pássaros da treva. Em nós,
- Em noss'alma criminosa,
O pavor se insinua...
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais.
Um como grande e doloroso arquejo
Corta a amplidão que a amplidão continua...
E cadentes, metálicos, pontuais,
Os tanoeiros do brejo,
- Os vigias da noite silenciosa,
Malham nos aguaçais.

Pouco a pouco, porém, a muralha de treva
Vai perdendo a espessura, e em breve se adelgaça
Como um diáfano crepe, atrás do qual se eleva
A sombria massa
Das serranias.

O plenilúnio via romper... Já da penumbra
Lentamente reslumbra
A paisagem de grandes árvores dormentes.
E cambiantes sutis, tonalidades fugidias,
Tintas deliqüescentes
Mancham para o levante as nuvens langorosas.

Enfim, cheia, serena, pura,
Como uma hóstia de luz erguida no horizonte,
Fazendo levantar a fronte
Dos poetas e das almas amorosas,
Dissipando o temor nas consciências medrosas
E frustrando a emboscada a espiar na noite escura,
- A Lua
Assoma à crista da montanha.
Em sua luz se banha
A solidão cheia de vozes que segredam...

Em voluptuoso espreguiçar de forma nua
As névoas enveredam
No vale. São como alvas, longas charpas
Suspensas no ar ao longe das escarpas.
Lembram os rebanhos de carneiros
Quando,
Fugindo ao sol a pino,
Buscam oitões, adros hospitaleiros
E lá quedam tranqüilos ruminando...
Assim a névoa azul paira sonhando...
As estrelas sorriem de escutar
As baladas atrozes
Dos sapos.

E o luar úmido... fino...
Amávico... tutelar...
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes...

                                 Manoel Bandeira
Conversa de amigosAs curvas do tempo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ensaios

baú patrimônio  imemorial oxidação teus passos meus passos abstinência arco e chifre olhos plácidos camisa alva e p...