sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Oiseau tem gosto de liberdade

Língua Mãe

Não sinto o mesmo gosto nas palavras oiseau e pássaro.

Embora elas tenham o mesmo sentido.
Será pelo gosto que vem de mãe? de língua mãe?

Seria porque eu não tenho amor pela língua de Flaubert?
Mas eu tenho.
(Faço registro porque tenho a estupefação de não sentir com a mesma riqueza as palavras oiseau e pássaro)
Penso que seja porque a palavra pássaro em mim repercute a infância
E oiseau não repercute.
Penso que a palavra pássaro carrega até hoje
Nela o menino que ia de tarde pra debaixo das árvores a ouvir os pássaros.
Nas folhas daquelas árvores não tinha oiseaux
Só tinha pássaros.
É o que me ocorre sobre língua mãe.

Manoel de Barros, em O fazedor de amanhecer, ed. Salamandra


 
E assim começa mais um dia.
Falando em gosto, seu Manoel
nuvem chumbo
foi o que senti quando meu gato soou o alarme
logo cedo.
O meu caçador de oiseau.
Porque não são simples miados
os que meu companheiro profere,
cinco e meia da manhã,
horário de verão...
São reclames de milênios,
dá a impressão
de que ele está impedido de dominar o mundo.
Não sorri, embora agora o faça.
Engoli em seco,
pisei o chão frio e encerado
e abri-lhe porta e janela.
Então começou o itinerário,
sempre igual
e que me ajuda
a lembrar:
que dia é?
que horas?
que há na agenda?
que TCC vou deixar de avaliar,
por esquecimento?
que Duerme Negrito cantarei?
Que farei com os PAs?
Que direi a essa gente?
Que temos para alimentar o bichano?
Hora da medicação?
Comprou o comprimido?
Limpar a caixinha de areia.
Achar uma vasilha maior para água,
gato não gosta de molhar os bigodes.
Dia de fazer mercado?
Dia de secretária do lar?
Livros de chamada?
Artigo que não enviarei ao Mosaico?
Já fiz meu passaporte?
Que mais, ah, os documentos para a avaliação docente,
eu que cheguei a uma cotação de 4.5 em outubro
e joguei a toalha fazendo as contas:
comecei a dar aulas em 1982,
não quero mais isso!!!
Algo mais de que precise me lembrar e não vou?
Ah, assinar férias.
Que trupe é essa que chegou em Lisboa?
Alguém se importou que temos uma aparição em palco nos próximos três dias?
Ontem aquela solidão em palco,
depois a solidão no pátio
me arrasou...
Para apartar o gosto de nuvem
chumbo
óxido
amargor
Comi um pedacinho do carinho
que Dona Sira vem-me dando
aos finais das aulas,
junto com uma vitamina de mamão e amor.
Ontem ela me mostrou um portfólio
de Neyde Thomas,
organizado pelo Maestro Julio Medaglia
por ocasião de sua passagem.
Ali há informações de uma vida profícua,
dividida até com Pavaroti.
Pensando,
não cogitei movimento assim para minha vida.
Não me via nos vestidos bufantes de Tosca
ou no kimono de Mme Butterfly.
Gosto demais dos espaços das igrejas...
Fiquei olhando aquele livro cheio de fotos
datas, Berlins e batons...
E a morte chegou, inexorável,
e a levou
Sra Thomas, a quem eu chamei mais de uma vez em 2012,
que olhasse por uma pobre cantante
que não se esforçou para calçar os sapatos vermelhos da ribalta.
O gosto nuvem chumbo persiste, ó Manoel de Barros.
Gente que vai pra Lisboa,
gente que vai pelo ar...
Vou ler A menina que roubava livros.

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