sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Contos de mae, introducao

Pelas maes novas, maes velhas, maes secas, maes mortas, maes que vao nascer, maes que vao passar, maes verdes, maes envenedadas, maes de peitos qualhados, maes sufocantes, maes sufocadas, maes sozinhas, maes equivocadas, maes perversas, maes que criaram os filhos dos outros, maes...
Contos de mae:
CONTOS
História da Mãe
Hans Christian Andersen
(Adaptada por Cida De Stefano)

A Mãe estava sentada à cabeceira do filho, muito triste e apreensiva, temerosa de que ele morresse. A criança, pálida, respirava fracamente.
Ouviu baterem à porta e viu entrar por ela um pobre velho envolto em um cobertor. Era pleno inverno e o velho tremia de frio. A Mãe ofereceu-lhe uma caneca de cerveja e convidou-o a se sentar ao seu lado na lareira, para se aquecer. A criança dormia e o velho ficou balançando o seu berço, fitando o menino doente que respirava com dificuldade.
–  Não crê que ficarei com ele? – perguntou-lhe. Não crê que Deus Nosso Senhor não o irá tirar de mim?
O velho, que era a própria Morte, meneou a cabeça de uma maneira estranha que tanto podia significar “sim” como “não”. A Mãe baixou os olhos chorando e, como não pregava o olho havia três dias, adormeceu. Depois de um breve instante acordou sobressaltada, tremendo de frio, e percebeu que o velho havia desaparecido com a criança. Saiu correndo de casa, gritando por seu filho. Lá fora, uma mulher de longas vestes negras estava sentada no meio da neve.
– A Morte esteve no seu quarto  – disse ela. Vi-a sair apressada, levando seu filho. Ela corre mais que o vento e nunca traz de volta o que leva.
– Mostre-me apenas o caminho que ela tomou e saberei encontrá-la.
– Conheço o caminho, mas se quer que o ensine, terá de cantar para mim todas as canções que cantava para o seu filho. Gosto de ouvi-las. Sou a Noite.
– Cantarei todas – disse a Mãe. Mas não me detenha, pois preciso alcançar a Morte e recuperar o meu filho.
A Noite permaneceu em silêncio. A Mãe, então, começou a cantar. Eram muitas as canções. Finalmente, a Noite mostrou-lhe o caminho dentro do escuro pinheiral.
Mas, no mais profundo do pinheiral, o caminho bifurcava-se e ela, não sabendo para que lado seguir, perguntou a um arbusto espinhoso, sem folhas nem flores, com os galhos revestidos de gelo:
– Não viu a Morte passar por aqui, levando meu filho?
– Vi – respondeu o arbusto – mas só o direi se me aquecer junto ao seu coração. Estou morrendo de frio.
A mãe apertou o arbusto contra o peito e os espinhos penetraram em sua carne. O arbusto brotou e cobriu-se de folhas verdes e de flores, tal era o calor que brotava daquele coração de Mãe.
Seguindo o caminho indicado por ele, a Mãe chegou a um grande lago. Para atravessá-lo, abaixou-se para beber toda a sua água. Era impossível, mas esperava que, por milagre, pudesse fazê-lo.
– Nunca conseguirá beber-me – disse-lhe o lago. É melhor fazermos um trato. Gosto de colecionar pérolas e seus olhos são as pérolas mais claras e lindas que já vi. Se me der seus olhos, poderei carregá-la até o outro lado, para a grande estufa onde mora a Morte. Lá, flores e árvores representam vidas humanas.
– Tudo farei para chegar até onde está o meu filho, disse a Mãe. Pode ficar com meus olhos.
No mesmo instante seus olhos caíram no fundo do lago e se transformaram em pérolas, e o lago levou-a até a margem oposta. Do outro lado havia uma casa estranha de uma milha de largura. Não se podia dizer ao certo se era uma montanha com matas e cavernas ou se era uma parede de tábuas. Mas a pobre Mãe nada via e perguntou a uma velha que cuidava da grande estufa da Morte:
– Onde acharei a Morte que levou o meu filho?
– Ela ainda não chegou – respondeu a velha. Como conseguiu vir até aqui? Quem a ajudou?
– Deus Nosso Senhor, que é todo misericordioso, me ajudou – disse a Mãe. Onde poderei encontrar meu filho?
– Não o conheço e você também não enxerga. Muitas flores e árvores murcharam esta noite. A Morte não tardará a vir para transplantá-las. Deve saber que cada pessoa tem sua árvore da vida ou sua flor, conforme sua índole. Elas se parecem com as plantas comuns, mas têm um coração que pulsa.
Também o coração das crianças bate! Guie-se pelas batidas, e talvez reconheça o coração de seu filho. O que me dá para eu lhe explicar o que ainda terá de fazer?
– Nada tenho para dar, mas por você irei até o fim do mundo.
– Nada tenho para fazer lá – respondeu a velha – mas pode dar-me seus longos cabelos pretos. Como sabe, são muito belos. Em troca, receberá meus cabelos brancos. Sempre é alguma coisa.
A Mãe fez o que a velha pediu e logo entrou com ela na grande estufa da Morte, onde flores e árvores cresciam em estranha promiscuidade. Cada árvore e cada flor tinha um nome, cada uma delas era uma vida humana espalhada pelo vasto mundo. A Mãe angustiada curvou-se sobre todas as plantas. Ouviu bater dentro delas corações humanos e, dentre milhões, reconheceu o de seu filho.
– Aqui está! – gritou, e estendeu a mão para um pequeno açafrão azul, que pendia triste e murcho.
– Não toque na flor – disse a velha. – Fique aqui e, quando a Morte vier, não a deixe arrancar a flor. Ameace-a de arrancar outras flores e ela ficará com medo, pois é responsável por elas perante Deus: nenhuma pode ser arrancada sem a permissão divina.
De repente, uma gélida rajada de vento atravessou o espaço, e a Mãe sentiu que a Morte acabara de chegar.
– Como encontrou o caminho para vir até aqui? – perguntou a Morte. – Como pôde chegar mais depressa do que eu?
– Sou a Mãe – disse ela.
A Morte estendeu a longa mão para a flor de açafrão e a Mãe cobriu-a com as mãos. Mas a Morte soprou-as com um vento mais gélido que o invernal, e elas tombaram sem forças.
– É inútil... Nada pode fazer contra mim – disse a Morte. – Sou o jardineiro. Tomo suas flores e suas árvores e as transplanto para o grande Jardim do Paraíso, na terra desconhecida. Não ouso, porém, dizer-lhe como crescem ali e o que se passa lá.
– Devolva-me meu filho! – pediu a Mãe.
Chorou e implorou e, de repente, agarrou duas flores, uma em cada mão.
– Vou arrancar todas as suas flores! – gritou para a Morte. – Vou arrancá-las, pois estou desesperada.
– Não as toque! – disse a Morte. – Afirma que é desgraçada, mas quer tornar outra mãe tão desgraçada quanto você...
– Outra Mãe? – gemeu a pobre mulher.
E logo soltou as duas flores.
– Aí tem seus olhos – disse a Morte. Pesquei-os no lago, onde brilhavam com grande intensidade. Eu nem sabia que eram seus. Tome-os de novo. Estão mais claros do que antes. Olhe, depois, no interior daquele poço fundo. Vou dizer-lhe o nome das duas flores que quis arrancar e verá o futuro delas, toda a sua vida humana. Verá o que estava prestes a arruinar.
A mulher olhou o fundo do poço. Era uma ventura ver como uma das vidas se tornava uma bênção para o mundo, ver quanta felicidade e alegria desdobrava-se ao seu redor. E ela viu a outra vida, repleta de penas e atribulações, de terror e de miséria.
– Uma e outra são resultado da vontade de Deus – disse a Morte. – Direi, apenas, que uma das duas flores era a do seu filho. Viu o destino e o futuro do seu filho...
A Mãe soltou um grito de susto.
–  Qual delas era a do meu filho? Diga-me! Liberte o inocente. Livre o meu filho de toda a miséria! Leve-o, será melhor. Leve-o ao reino de Deus! Esqueça minhas lágrimas, minhas súplicas, tudo quanto eu disse ou fiz!
– Não a entendo – retrucou a Morte. – Quer seu filho de volta, ou quer que o leve para o lugar que você não conhece?
A Mãe torceu as mãos, caiu de joelhos.
– Não me ouça! – suplicou a Deus. – Se o que peço é contra a Sua vontade, que é sábia, não me ouça. Não me ouça!
E baixou a cabeça.
Então a Morte afastou-se, levando o seu filho para a terra desconhecida.

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