sábado, 29 de setembro de 2012

E talvez se falasse em cavalo de fogo

Sereia de Canosa, sec IV a.C.



Comprovação de que mesmo meios insuficientes, e até infantis, podem conduzir à salvação.
Um sich vor den Sirenen zu bewahren, stopfte sich Odysseus Wachs in die Ohren und ließ sich am Mast festschmieden. Ähnliches hätten natürlich seit jeher alle Reisenden tun können (außer jenen welche die Sirenen schon aus der Ferne verlockten) aber es war in der ganzen Welt bekannt, daß das unmöglich helfen konnte. Der Gesang der Sirenen durchdrang alles, gar Wachs, und die Leidenschaft der Verführten hätte mehr als Ketten und Mast gesprengt. Daran nun dachte aber Odysseus nicht obwohl er davon vielleicht gehört hatte, er vertraute vollständig der Handvoll Wachs und dem Gebinde Ketten und in unschuldiger Freude über seine Mittelchen fuhr er den Sirenen entgegen.
A fim de proteger-se das sereias, Ulisses entupiu os ouvidos de cera e mandou que o acorrentassem com firmeza ao mastro. É claro que, desde sempre, todos os outros viajantes teriam podido fazer o mesmo (a não ser aqueles aos quais as sereias atraíam já desde muito longe), mas o mundo todo sabia que de nada adiantava fazê-lo. O canto das sereias impregnava tudo -- que dirá um punhado de cera --, e a paixão dos seduzidos teria arrebentado muito mais do que correntes e mastro. Nisso, porém, Ulisses nem pensava, embora talvez já tivesse ouvido falar a respeito; confiava plenamente no punhado de cera e no feixe de correntes, e, munido de inocente alegria com os meiozinhos de que dispunha, partiu ao encontro das sereias.
Nun haben aber die Sirenen eine noch schrecklichere Waffe als ihren Gesang, nämlich ihr Schweigen. Es ist zwar nicht geschehn, aber vielleicht denkbar, daß sich jemand vor ihrem Gesange gerettet hätte, vor ihrem Verstummen gewiß nicht. Dem Gefühl aus eigener Kraft sie besiegt zu haben, der daraus folgenden alles fortreißenden Überhebung kann nichts Irdisches widerstehn.
As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio. É certo que nunca aconteceu, mas seria talvez concebível que alguém tivesse se salvado de seu canto; de seu silêncio, jamais. O sentimento de tê-las vencido com as próprias forças, a avassaladora arrogância daí resultante, nada neste mundo é capaz de conter.
Und tatsächlich sangen, als Odysseus kam, diese gewaltigen Sängerinnen nicht, sei es daß sie glaubten, diesem Gegner könne nur noch das Schweigen beikommen, sei es daß der Anblick der Glückseligkeit im Gesicht des Odysseus, der an nichts anderes als an Wachs und Ketten dachte, sie allen Gesang vergessen ließ.
E, de fato, essas poderosas cantoras não cantaram quando Ulisses chegou, seja porque acreditassem que só o silêncio poderia com tal opositor, seja porque a visão da bem-aventurança no rosto de Ulisses -- que não pensava senão em cera e correntes -- as tenha feito esquecer todo o canto.
Odysseus aber, um es so auszudrücken, hörte ihr Schweigen nicht, er glaubte, sie sängen und nur er sei behütet es zu hören, flüchtig sah er zuerst die Wendungen ihrer Hälse, das Tiefatmen, die tränenvollen Augen, den halb geöffneten Mund, glaubte aber, dies gehöre zu den Arien die ungehört um ihn erklangen. Bald aber glitt alles an seinen in die Ferne gerichteten Blicken ab, die Sirenen verschwanden ihm förmlich und gerade als er ihnen am nächsten war, wußte er nichts mehr von ihnen.
Ulisses, contudo, e por assim dizer, não ouviu-lhes o silêncio; acreditou que estivessem cantando e que somente ele estivesse a salvo de ouvi-las; com um olhar fugaz, observou primeiro as curvas de seus pescoços, o respirar fundo, os olhos cheios de lágrimas, a boca semi-aberta; mas acreditou que tudo aquilo fizesse parte das árias soando inaudíveis ao seu redor. Logo, porém, tudo deslizou por seu olhar perdido na distância; as sereias literalmente desapareceram, e, justo quando estava mais próximo delas, ele já nem mais sabia de sua existência.
Sie aber, schöner als jemals, streckten und drehten sich, ließen das schaurige Haar offen im Wind wehn, spannten die Krallen frei auf den Felsen, sie wollten nicht mehr verführen, nur noch den Abglanz vom großen Augenpaar des Odysseus wollten sie solange als möglich erhaschen.
Elas, por sua vez, mais belas do que nunca, esticavam-se, giravam o corpo, deixavam os cabelos horripilantes soprar livres ao vento, soltando as garras na rocha; não queriam mais seduzir, mas somente apanhar ainda, pelo máximo de tempo possível, o reflexo dos grandes olhos de Ulisses.
Hätten die Sirenen Bewußtsein, sie wären damals vernichtet worden, so aber blieben sie, nur Odysseus ist ihnen entgangen.
Se as sereias tivessem consciência, teriam sido aniquiladas então; mas permaneceram: Ulisses, no entanto, escapou-lhes.
Es wird übrigens noch ein Anhang hiezu überliefert. Odysseus, sagt man, war so listenreich, war ein solcher Fuchs, daß selbst die Schicksalsgöttin nicht in sein Innerstes dringen konnte, vielleicht hat er, obwohl das mit Menschenverstand nicht mehr zu begreifen ist, wirklich gemerkt, daß die Sirenen schwiegen und hat ihnen und den Göttern den obigen Scheinvorgang nur gewissermaßen als Schild entgegengehalten.
Dessa história, porém, transmitiu-se ainda um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astuto, uma tal raposa, que nem mesmo a deusa do destino logrou penetrar em seu íntimo; embora isto já não seja compreensível ao intelecto humano, talvez ele tenha de fato percebido que as sereias estavam mudas, tendo então, de certo modo, oferecido a elas e aos deuses toda a simulação acima tão-somente como um escudo.

 Franz Kafka, 23 de outubro de 1917

Original alemão extraído de Franz Kafka. Beim Bau der chinesischen Mauer und andere Schriften aus dem Nachlaß (in der Fassung der Handschrift), Frankfurt am Main, Fischer Taschenbuch Verlag (12446), November 1994, S. 168-170. Edições anteriores intitulavam-no "Das Schweigen der Sirenen"  [O silêncio das sereias], título que, no entanto, lhe foi dado por Max Brod.
Tradução inédita de Sérgio Tellaroli

Penso, incansável, confusa e enfarada, nos termos eu sou, eu não sou... em policização,  etnomusicólogo, educador musical, poeta, cantor, transgressor, opressor, oprimido, de direito, orfeão, salvacionismo, varredura acadêmica, assistencialismo, a argumentação não se sustenta, Buda, filosofia, Sócrates, Jesus, malandragem, práticas musicais, projetos sociais, fala e escrita, música na escola, aula de música, para ontem, moralidade, peixe fora dagua, periferia, urbe, periferia da periferia, romancista, psicologia social comunitária, políticas públicas, SUS, FAS, funk, potência de transformação, cravos, Tia Anastácia, Visconde de Sabugosa, rap, violino, esgoto, pés no chão, brincadeira de rua, criança cuidando de criança - já fui essa, com cinco seis anos era babá, da filha da vizinha, das primas. Cristóvão Tezza, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector, Patricia Mello, Ignácio de Loyola Brandão, outros. Penso na falta de afeto, em carência, em loucura (parece que ninguém mais é louco, só eu), em espíritos afins, reunidos nos seus grupos, e em congressos de dois dias, feitos a clarim, e no pessoal fazendo um som medonho, sirenal, lá na cantina, espaço público, belicoso, libidinoso, cultural, "uma raça uma face". Penso no meu menino, doce feito algodoeiro, sonhador... na platéia de encarnados contáveis nos dedos, desencarnados os quis ver, não me foi dado... Penso também no som que a "banda" fez no TELAB, noite anterior, nós numa caixa de cores, em meio a impedâncias de ondas médias "cai a tarde e todas as plataformas", rufando aqueles tambores mouriscos vicking a todo vapor... arte? Cadê, Ulisses meu, amado, onde? My Lord? Quantos cães nesse dia, e gatos? E esquizóides, e vampiros? E a chuva, o frio temporão? Enxaqueca, sinusite, glaucoma, AVC, pressão arterial 24 por 18?...
Penso também, entrando no tema central desta crônica cotidiana, na reação de uma mãe diante de raquítica sereia de cordel, antiga estampa a simbolizar literatura, só. Não, não me reconheço sereia, não é esse símbolo mais um alterego meu, talvez algo do superego, do id, do caráter, da sombra, do buraco que trago em meu peito. Não sou sereia. Dos mitos, o de Orfeu me cai bem. Embora reflita muitas vezes sobre a transgressão psíquica de devorar homens, e que os homens tenham estado no cais, e eu "a meio do mar, que me arrepia e foge"...  mais do que depressa ocultei tal sereiazinha, bonitinho o monstrinho que só, lá no silêncio naif dela, sossegadinha no meio do mar...
Tenho uma foto tua no CD que é de tirar o fôlego, é como quebrar-se às rochas. Então não sou mesmo, nem simbolicamente, sereia. Sou eu Ulisses. Ou um de seus marujos. Ou sou sim, sereia consciente, quando as noites do ascendente em aquário assim mo favorecem. E talvez se falasse, nessa narrativa, em cavalo de fogo.

Felizes festividades, meu amor, queria, agora, estar a teu lado!!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

verso bordado

Lá fora a luz do dia, baça. Tu me disseste qualquer desafeto, verso E foste embora sem adjetivo que se interpusesse. Eu, às...