terça-feira, 12 de junho de 2012

O divã e o espartilho





 *google images

Hoje eu tinha planejado danças, elipses de braços abertos
para girar agudos
encontros para falar de estúdios e sons
e projetos
e pen drives e partes,
para falar de cintura pélvica e pavilhão vocal
e quedei-me, inerte, no divã.
Hoje eu deveria ter rodado com meu carro
após uma semana posando de madame com chofer
exceto por um bigode
e duas carrancas amarradas
e a caixa registradora e seu tilim
exceto pelo momento de andar com meu amigo
homem ideal
e falar sobre relações com seres divinais
e quedei-me, inerte, no divã.
Hoje eu dei uma aula bonita
após acordar surpresa, atrasada,
amassada e suada,
de um sonho importante
sem imagem
e entendi que minha voz lenhosa
provém de meus ciclos circadianos erradios.
E quedei-me, inerte, no divã.
Hoje fiz preliminares de acordos
em que eu não me darei nada
além de música
em que escorregarei e perderei
e correrei riscos de desafetos
ainda bem tudo está fora de meu alcance
por isso
quedei-me, inerte, no divã.
O presente ficou para amanhã.
Por um segundo queria ser eu a receber a jóia caríssima,
jóia telefonema,
jóia beijo,
jóia voz,
e é só afeto que se quer receber
e para receber é preciso dar
muito mais
e então quedei-me, inerte, no divã.
O dia coroou.
O frio e a chuva arrefeceram.
Não sou, nem amante, nem esposa, nem mulher ideal.
Sou jacaré poiô, sem rabo,
a ler Sagarana...
O divã é meu ouvido é meu braco é meu colo.
É meu Freud.
Não sei orar e mais um natal de Santo Antonio de Lisboa
se afigura.
É hora de O chamar.
O pedido eébanal, não alcancará mais do que a primeira estrela no firmamento.
Já é suficiente, querido Santo.
Quantos sonhos com revolvimentos de túmulos já sonhei
mesmo aqui em meu divã.
E para Freud seriam sonhos clássicos. Mazoquistas.
O presente desse dia comunal dos namorados
é amar-me, não como a mirar-me no espelho das águas
amar-me perdoando minhas rodas de fortunas aflitivas
é redimensionar-me na nova roda.
O presente é parar de valorar meus pântanos
e preparar-me jardins.
Eu sou forte, tecedeira
e a vida é o que eu quiser,
é o presente que eu tenho, todos os dias
quando respiro.
Ao mirar esta pelve tão bela da estampa
quis ouvir-lhe a voz
a ver se faz sentido
o espartilho de apoiar
e o desejo de servir.
Santo Antonio, valei-me.
Santo Antonio, valei-me.
Santo Antonio, valei-me.
Que assim seja.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

ensaios

baú patrimônio  imemorial oxidação teus passos meus passos abstinência arco e chifre olhos plácidos camisa alva e p...