sábado, 12 de maio de 2012

A semana

* de Suelen Rosseto

Meu caminho torto



A chuva cai em efêmeras partes
e as gotas se dissolvem na fumaça do cigarro.
As estradas retas não me atraem,
e, de todas, a mais curva me fascina.
Ainda que eu sinta o calor da luxúria
passeando em meu cárcere,
não posso deixar de expressar
toda a repugnância que surge
quando eu percebo, em meio à bruma,
sua tez enroscada em outra (que não a minha).
Covarde.
Gritar é como um túnel repleto de palavras vazias
que serve, apenas, para esvaziar o peito nesse movimento catártico.
Para que eu continue no devaneio eterno,
crendo que sua paz só é completa na minha,
e para você reafirmar à ti mesmo
que meu caminho torto
é reto demais para o seu.

Meus alunos me surpreendem. Quase todos os dias. Esse trabalho foi apresentado na ultima quinta-feira e lembrou-me dos tempos de FEMP na Paula Gomes, em que éramos nós a gritar manifestos, por nariz de palhaço e expor nossas idiossincrasias como unicos mecanismos de autoafirmação e defesa contra predadores. Seria cruel dizer que falhamos. Que precisamos recorrerer aos monopolios do sistema para satisfazer nossos arroubos de adultos modernos que queriamos ser. Que éramos, enfim. Usávamos toadas ancestrais e nem desconfiávamos de que se tratava de réplicas dos modelos usados por nossos trisavos, carecendo de revisão. Eram as canções que trazíamos conosco, os Cálice adonados, para dar suporte ao horizonte que se descortinava, nos convidando a luta, a "esquecer o medo, a fugir das amarguras, ah! Milton Nascimento, a voz do amor... Éramos felizes e nem sabíamos. Queriamos a bateria, o combustível de desbravar - o amor, ou a poesia, é o mesmo, querido Candido Portinari. Era moda ser pro-anistia na época, éramos filhos dos donos da revolução de 64. Éramos personagens de As meninas, da querida Lygia Fagundes Telles. E nem conheciamos os paises baixos ou A disciplina do amor. Éramos "olharmo-nos intacta retina", Caetano, "vamos comer"... Escolhíamos nossos parceiros a dedo, cheios de marra, cheios de assertividade e paixão, para descobrimo-nos mais tarde devorados por eles...
A foto com que o Cyro me presenteou, post do quadro anterior, é daquele momento, um tanto expandido, mas daquele momento. Há o duplo desejo de pedir flores então: o mesmo desejo de ser amada de tempos remotos - Clarice Lispector e tantos autores falam lindamente sobre esse desejo, e o desejo de por flores na lápide daquele tempo e de todos os tempos em que a saga se repetiu. Estarão abraçados o angustiado desejo de amor e o desejo de liquidar a história. Nem uma coisa nem outra são viáveis. Dizem que é quando se para de lamentar a não vinda do amor que então ele vem...o amor é a bateria de todos os encontros, e se não estiver ali, é a história do Principe da Televisão a ser resgatada, a puxar o gatilho de tantas mal-amações que quereríamos sob a lápide... o texto do tal prínicipe ainda não veio, só pedi o escrito de uma aluna - acima postado, o que deve ter sugerido à outra que não lhe tenho amor. Engano seu. Mal sabe que, ao falar do seu principe, Bárbara falava tambem do meu principe, O Lash, que se sentou ao meu lado no final da tarde de sexta e talvez quisesse dizer oi, ou adeus, ou trégua, ou água... ele não disse nada e me fez chorar muito outra vez... eu gostaria de ter-lhe dito que o respeito e que o amarei para sempre, e serei a professora para sempre, por mais que ele venha a renegar isso, o que é comum... ainda bem que escolhi para programa de fim de noite rever Cinema Paradiso e quase me afoguei em tantos beijos de pura poesia e encantamento. A vida é assim, vida e não cinema. Ou televisão. Espero que meu irmão Mauro possa ler esse depoimento e antever o que lhe espera, agora que se encontra na posição de docente adjunto titular do curso de administração de empresas...
É um tempo bonito esse dos meus alunos, e sinto falta de mais arrojo deles, de mais nudez e mais alegria.  Dá uma sensação de que eles precisam descobrir novas toadas, mais modernas. Mal sabem eles que seus trisavos devem vir ao TELAB toda semana, para aplaudir-lhes as soluções que encontram e regar-lhes, de forma atômica, fluídica, com amor.



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