segunda-feira, 21 de maio de 2012

Amorterapia

Fiquei nove anos deitada no divã
girando a cabeça de um lado a outro
dizendo não entre dentes.
Eu era um caso clássico.
Esquadrinhei todos os detalhes
do teto branco
em busca de um foco
enquanto os lábios rememoravam
movimentos de sucção.
Chorei todas as lágrimas de que dispunha,
falei todas as bobagens que sabia.
Ri à toa com a cabeça cheia de Prosac, Aropax, Stylnox.
E nunca resolvi minha aversão ao sono
ou meu compromisso com a obesidade.
As últimas cartelas eu as joguei no lixo, topiramato,
estabilizador de humor,
mais de cem reais em fármacos a cada quinzena.
Fiz todas as associações que meu QI 50 permitiu.
Não fiz o eletrocardiograma com doopler.
Nunca mais vi ou falei com os terapeutas
como era previsto.
Fiz todas as resistências, transferências e contratransferências possíveis.
Combinei rotação dos olhos
com trilha sonora da vida
um K7 com a mesma canção gravada dos dois lados.
Massagens. Acupuntura auricular.
Regressões.
Hipnose.
Ouvi sinos mongóis e deitei num suave colchão vibratório e aquecido
útero.
Recitei a prática do Buda da Medicina.
Abri falência em 2006.
Ergui minhas pernas comprometidas
dez centímetros acima do tatame.
Nadei por cinco meses.
Considerei fazer a travessia de 800m em Caioba.
Tombei não sei quantas vezes
o pescoço
quebrando paradigmas
decodificando
aaaaaaas
respiros
suspiros
cismas
e uma energia que eu desconhecia
temia
a minha energia do afeto sexual
que para sublimar
é preciso viver.
O toque é essencial.
Identifiquei o vício de apaixonar-me
pelos caras errados.
Fiz mais de mil horas de estágio,
dois anos de formação
não tenho nenhuma documentação comprobatória
desse tempo.
não tenho como incluir
a experiência profissional no Lattes
o que é uma pena,
eu pontuaria um pouco mais,
meus alunos ganhariam a bolsa da Fundação Araucária.
O paciente concluiu os actings comigo
quando adonou-se
do tórax
fez mais um ano de aulas de canto
adotou duas meninas
e foi ser feliz.
Hoje, ao lembrar meu espanto
diante dos textos
dos capiíulos
dos actings
sorrio.
Porque agora compreendo
alguma coisa de todo o processo
doloroso
vivido em plena crise
no luto
nas cusparadas de desorganização e desamor por mim.
Assim me chegaram Lino e George,
os gatos.
Dr. Alberto Almeida, se estivesse por aqui
pelo sul
hoje seria o profissional de saúde do sexo oposto
a quem eu recontaria minha história.
A quem eu pediria
que me ensinasse a amar.
Procuro neste tempo
adequar-me a um procedimento
chamado noeróbica
Procuro ouvir a voz de Joana de Angelis
de Andre Luis
de Fénelon
de Emmanuel.
Procuro perdoar meu e minha mãe.
Procuro me perdoar.
E tenho convicção de que
se vou escrever cerca de seissentas páginas de teoria
é sobre afeto sexual na música que escreverei
É sobre essa bateria que justifica o tempo de viver no orbe terrestre
que defenderei uma tese.
Obrigada a Marcia,
que procurou nesse domingo
tornar prático
o conceito de amor
mencionando apenas
o primeiro homem
a agarrar a mulher pelos cabelos
e devorá-la na caverna.
Obrigada, amor, obrigada
eu parei de sentir frio.




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