quinta-feira, 26 de abril de 2012

Perguntas sobre técnicas vocais


Respondendo a perguntas da Maestrina Doriane Rossi.

Em termos de técnica vocal, você conhece muitas diferentes?

Não vou apoiar-me em teórico nenhum neste momento para responder a essa pergunta, somente em minhas experiências com a música do mundo do Projeto Música dos Povos, no qual sou colaboradora e cantora há dezesseis anos.
Sim conheço diferentes técnicas vocais através das gravações as quais recorri. Não sei nominá-las. Sei executar cinco variações. Nesse estudo, li sobre o trabalho de alguns etnomusicologos, desses profissionais que moram um tempo nas comunidades de onde recolhem os temas musicais. Joan Russell, por exemplo. Profissional da Psicologia Cultural, Bárbara Rogoff. Ah, que fique claro, tudo estudado e tratado pela perspectiva geral da cultura dos povos e não de aspectos essencialmente musicais. Esse foi o caminho mais lúcido que encontrei, com menos digressões e mais bases científicas. Tenho vontade de fazer isso um dia, morar numa cidadezinha do interior do Brasil. Estudar a cultura deles. E seu jeito de cantar. As técnicas vocais são vinculadas ao cotidiano das comunidades, são uma espécie de cartão de visita do lugar, ou seja, é um fenômeno vivo, dinâmico. É um modo de vida das pessoas da comunidade. Aqueles que usam a maneira de cantar ou falar de determinado modo aprenderam isso por tradição oral. Dominam perfeitamente a técnica como dominam seus passos, seus esfíncteres. Às vezes, como no caso dos monges tibetanos, a técnica é executada só por homens, homens idosos, ou só por mulheres especializadas em certos tipos de canto chorado, como as carpideiras (que existem por todo orbe terrestre). Dá pra se apropriar dessa variedade de técnicas? Fiz o que pude nesses anos, e cerquei cinco maneiras, provavelmente criando novas técnicas a partir da minha experiência individual. É um trabalho muito vinculado, ainda, a imitação – que espero não seja barata...

O que pensa sobre técnica de bel canto X música popular?
Tenho muito pouca experiência com técnicas de bel canto. Trabalhei um ano somente com a Prof Roseli Schünemann. Fiz cursos de curta duração com o tenor alemão Theophil Maier, com o contratenor Walter Silva, com a cantora Lucia Passos e a cantora Martha Herr. Foi o suficiente para ter a voz marcada pelas tais técnicas. Toda a dramaticidade natural que tenho aflorou rapidamente e a capacidade de compor personagens épicos poderia ter-me feito atriz. E é isso talvez o que falte no canto popular. É a diferença que vejo nas abordagens. São técnicas dramáticas de uso da voz, que tornam a voz histriônica. E ai depende do bom senso do cantor, da elegância do cantor fazer dessa histrionice um clown ou um ator épico. Ah, só não tive tempo de entrar no molde do cantor lírico solo, fechei mais o molde do cantor de coro (foi o repertório que mais treinei, peças para coro de ópera – estudei isso dos 15 aos 21 anos). Como parei de fazer tal repertório, perdi um pouco do vigor, que venho recuperando ai no trabalho do CEIC.
Música popular tem um processo similar ao da musica do mundo (você vai encontrar inúmeros músicos ditos populares nos catálogos de world music, é uma questão de produto industrial). O jeito de cantar de um cantor popular é afeito ao seu lugar de origem. Ou ao padrão de qualidade industrial. São quatro os jeitos atuais que o mercado formata. Dá pra separar os cantores muito bem por eles.

Até que ponto a característica vocal do indivíduo pode ser alterada em função da técnica e do modelo do professor?
Depende muito dos ouvidos (interno e externo) do individuo. Há pessoas bem moldáveis e há pessoas menos. Há quem capta muito facilmente a organicidade de uma técnica. Há quem nunca alcance o entendimento do que fazer... é trabalhar com disciplina, como ensina Emmanuel.

Você tem algum artigo/trabalho escrito sobre técnica vocal?
Em 2011 publiquei um primeiro artigo em um dos Anais eletrônicos da FAP -  sobre minhas experiências com musica do mundo, bastante insipiente ainda. Tem que ir escrevendo e publicando até sair, daqui há alguns anos, algo que preste.

Espero ter podido ser útil num primeiro momento.

Um abraço.

Liane


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