quarta-feira, 28 de março de 2012

O dia seguinte

Temos um espaço de encontro na Escola. Amplo, servia antes aos fumantes e jogadores de truco, as rodas de choro, de samba, aos cantores corajosos, aos beijos desvairados, aos sapatos de salto alto, aos encontros casuais, esperados - as furtivas esperas que marcaram minha vida. Vez por outra um moço lindo, de boa mão para a culinária, brindava a freguesia com belas tortas de requeijão e tomate seco, capuccino e granola com açaí...ah, suco de hortelã com abacaxi...e sua simpatia habitual...
Hoje esse espaço amplo esta mais amplo. Saíram as mesas, os bancos, fechou-se a janela improvisada que protegia  a cozinha - improvisada, e ficou um piso bom de escorregar. Foi para ali, para o espaço, que pensei o encontro oficina corpo sonoro. Interessante expor estudantes de musica e esses eventos. E certo que não experimentaram Dalcroze no ensino fundamental, não cirandaram nos recreios, pular corda talvez... pena, logo se fecharam em seus gabinetes-quartos com seus escudos e elmos e espadas, para lutar sozinhos, individuais...então a roda, o circulo cria a bolha, enseja o coletivo, onde e difícil penetrar, onde o esquisito aparece em cinemascope e o gracioso demora...a musicalidade e uma marca indelével, que se revela em meio ao desequilíbrio, ao aprouxe do palhaço que mora em nos... que somos hoje adultos querendo professorar harmonias...
Pouco mais de uma hora durou a primeira experiência. E eu deixei claro: aproveitem, porque e da primeira vez que se aproveita, depois e tratar de passar a líder da proposta. Muita gente boa querendo "apresentar" sua célula rítmica com palmas, sendo que uma palma bastaria... muitas três pernas... no final, resolvi esperar com  meu Ivan Zigg, ha que se ter um grande momento pra delicadeza entrar numa roda, ha que se ter vivido nos sambas de roda para saber exercitar o flerte, pelo exercício so... porem no final do jogo entrou na roda algo inusitado, que eu mesma nao experimentara ainda: criar os quatro versos, a quadra, no instante em que eles brotam. O tema: Para apresentar meu nome. Nossos sorrisos timidos e tentativas valeram a noite. Millor teria feito uma boa quadra de tal quadro. Chico teria chamado Azambuja, ou o Professor Raimundo pra rir.
Espero sinceramente que os musicos (e duas atrizes) sintam no corpo os beneficios do equilibrio, os beneficios de mexer-se, de estender os tornozelos e pulsos, e tirar dos ombros a canga, a magica de andar ate a moca de labios azuis (e um mural, pintado ao fundo do espaco...), os beneficios da ciranda... ah, a ciranda nao estava nos planos, ela veio, e veio uma linda ciranda que nao conheco. O moco que a cantou e bom, experiente. Espero que tenha a paciencia e o espirito de doacao necessarios, para ficar ate o final e ensinar aos mocos la da sua posicao de estudante...
Depois veio o Omundo... mas ai e outro conto, e quem conta um conto...

Assisti a pouco um squetch do Palavra Cantada, com o jogo segundo minuto hora, que pode bem integrar o trabalho iniciado ontem com os oficineiros 12. Trata-se de executar gestos largos para hora, ocupando espaco menor para o minuto e menor ainda para o segundo... usar a palavra segundo minuto e segundo oferece ostinatos bem interessantes. E que venha um conto interessante e fantastico sobre um relogio, sobre o tempo. Ou poema...

Passa, tempo, tic-tac
Tic-tac, passa, hora
Chega logo, tic-tac
Tic-tac, e vai-te embora
Passa, tempo
Bem depressa
Não atrasa
Não demora
Que já estou
Muito cansado
Já perdi
Toda a alegria
De fazer
Meu tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
Tic-tac
Tic-tac
Dia e noite
Noite e dia
o relogio - Vinicius de Morais

Ao senhor Túlio sempre lhe fizera espécie como é que os relógios trabalhavam incansavelmente e nunca paravam.
- Dá-se-lhes corda e eles andam - explicavam ao senhor Túlio, que tinha um relógio dos antigos, muito anterior aos relógios a pilhas.
Mas o senhor Túlio não acreditava. Devia haver outro mistério.
Um dia, o relógio dele parou, por mais corda que se lhe desse. Quando o senhor Túlio foi levá-lo a arranjar à oficina de relojoaria, ficou maravilhado a olhar para o maquinismo do seu querido relógio, que o relojoeiro destapara.
- Tantas rodinhas. Nunca pensei - admirou-se ele.
Mas mais espantado ficou quando o relojoeiro, com uma pinça, tirou uma formiga já morta, que tinha encrencado o mecanismo.
- Pronto. O desarranjo estava aqui - explicou o relojoeiro, voltando a fechar a tampa do relógio.
O senhor Túlio estranhou:
- E não põe lá uma formiga nova?
- Para quê?
- Para fazer as vezes da que morreu. Como é que o relógio pode trabalhar sem maquinista?
E se o senhor Túlio tivesse razão e fosse mesmo à conta das formigas que os relógios conseguem trabalhar? É uma ideia como outra qualquer e bastante divertida. Até dava outra história.
antonio torrado e cristina malaquias kids

Mais tarde, aprendo um novo jogo -

Sortear cinco verbos. Construir uma quadra a partir deles, sem suprimir ou acrescentar outros.
Exemplo:
Ventar pendurar comer chamar chover
Venta na colina.
Na corda, as roupas chamam dependuradas.
O tempo chove.
E o ventre da terra, satisfeito, come.
Ganhar espionar tocar procurar repartir
Reparto os livros que ganhei de estante em estante.
De repente,
toco a superfície quente de um lábio.
O amor que procuro espiona na folha pautada daqueles olhos.


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