domingo, 18 de março de 2012

Nove mil pares de olhos. Ouvindo...

O coro do CEIC esteve ontem diante de um público de nove mil pessoas.
Estudando juntos somente aos sábados, estudando em casa com ajuda de audio esporadicamente, ainda apoiados na ideia de reunir-se para cantar juntos porque isso é bom, o grupo executou então o Aleluia, do Messias de Handel, além de outras obras de natureza mais ou menos semelhante, como o Sanctus de John Leavit, The Lord Bless you and keep you (não lembro o autor). Bonito. Forte. Delicado como cantigas de ninar, disseram alguns. Pleno de falhas técnicas e interpretativas, há ainda muita resistência a timbragem, há aspectos que talvez necessitassem de outro profissional que não eu.
Há que  se olhar para algo do íntimo das pessoas que ali se encontram. É uma gente que está perto do bem, perto da verdade, perto da decência, da solidariedade, da compreensão, da compaixão. É um grupo de pessoas com quem é bom estar, de quem se pode esperar apoio em todas as áreas, em que se encontra consolo, fortaleza, riso, temperança. Há pessoas sofridas, pessoas muito adiantadas, pessoas que já estão em outra dimensão. É um oasis na Terra.
Espero não me demorar, eu também, em minhas resistências.
Que eu não seja tão apegada a idiossincrasias. Que me põem num passo reconhecido, um para frente, quatro para trás.
Que eu possa, através do canto, servir de exemplo. Para o que é volátil, para o que é volitivo, para o que é de voar. Porque cantar é flanar. Cantar é ir com as borboletas para o norte. É ir para os lugares mais altos e distantes da praia quando vem o tsunami. É entrar dentro do ar, do oxigênio, dentro do labirinto amoroso que tanto se procura e não se acha.
Naquele momento do coro, em que se canta que "amores vão estar em algum lugar entre Deus e nossas mãos", em que se agradece pelas moradas repletas de almas irmãs e que estão em algum lugar entre Deus e nossas mãos, nas repetições de glórias, aleluias, e possível voejar por sobre o mar de gentes na sala imensa e sorrir, agradecido porque viver neste planeta é uma benção, uma dádiva.
Obrigada, Mestre Jesus, por este momento de puro deleite. De um silêncio esplêndido. É para mim a hora do silêncio. Fico triste pelos que se agitam nesse momento, é comum a concentração e preparação vocal serem preteridas, por questões de espaco e tempo, e ao invés de silenciarem, os colegas cantores tentam cair do ninho. Eu procuro criar minha âncora num lugar tão íntimo e puro, que pouco conheço em mim e que é um prazer alcançar numa hora incrível como essa: encarar nove mil pares de olhos e ouvidos de uma única vez. Hora da alfagenia. Hora de cálculos, qual a distância à frente, a cada lado, a distância do ciclorama, qual a qualidade do som, o que me cabe na projeção da voz, qual o foco, as passagens desafiadoras do repertório, o que cada solo exige, o que realmente os colegas vão aproveitar de minhas orientações. Quais as chances (quase todas) de se ter um grande fiasco nestas condições...
Só não sei levitar, senão o faria.
Gostaria que as pessoas percebessem naturalmente este silêncio, o exercicío com a mão sobre a boca (com a mão em concha sobre a boca - pode-se tampar o nariz, você sopra um tom grave, com as bochechas infladas, sem deixar escapar ar por lugar algum. É um tom grave, profundo, de emissão longa, um mantra. Depois de breve pausa, o mesmo exercício, emitindo agora um tom agudo. Fazer isso pelo menos quatro vezes. Esse e o caminho do silêncio).
Nessa madrugada que começa, desejo que todos os colegas cantores já estejam em seus lares, repousando. E lembrando da doce experiência de cantar. Em conjunto. Com Fabio Cardoso ao piano, Thomas no cello, Leo Cardoso na percussão. Doriane Rossi na regência.
Tomara esse coro esteja no caminho de seu primeiro CD. Quando voltarmos ao Hospital de Clinicas, poderemos presentear cada paciente da UTI.
Boa noite a todos e obrigada. Eu sou muito feliz cantando ali.

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