sexta-feira, 2 de março de 2012

Cotidiano

Olha, estou aqui matutando como lhes escrever sobre esse fato cotidiano que vivi por volta das 21h de hoje, e ainda nao aprimorei o modelo. Vou reparar as curvas do texto na medida em que ele for sendo esboçado.
Eu estive tocando num teatro espetacular por esses dias, Teatro del Lago. Entrem no site, vale a pena...
é como comida boa, de "tocar ajoelhado"... cheirinho de madeira nova, tudo brilhando, uma equipe de produção de tirar o chapéu, uma aparelhagem, uma luz... uns dois mil lugares, em suma, de tirar o fôlego... e eu cantei la, do jeito que cantor gosta, em evidência, solo, tinindo... fiz por onde e tudo mais... estávamos numa cidade onde é possível banhar-se no lago, então a semana inteira fui parada na orla, pelos turistas que nos assistiram. Eu era reiteradamente cumprimentada, e agraciada e mimada e paparicada, dei até autógrafos... um público gentil, amoroso, respeitoso, que mais eu posso lhes dizer...
Há pouco fui com  meninos do segundasabado fazer uma aparição relâmpago na cantina da escola deles. Eles decidiram que valeria a pena tocar no espaço, para divulgação, para aparecer... Gente gente gente... tagarelantes e estressados em suas responsabilidades estudantis... se fossem pagantes daria sei lá, uns dois mil reais de bilheteria pelo menos, limpinho... gente, gente, gente, barulho, barulho, cigarro, os instrumentos amplificados e as vozes não, sem tablado ou luz que chamasse a atenção, ou figurino ou o que... todo ano é preciso chamar novos integrantes para o grupo, pela rotatividade desses trabalhos, e o que era um coral virou grupo vocal, culpa minha, eu comecei minha vida dirigindo o Cardápio e me especializei na forma... é um som simples, quase todo repertório executado em uníssono, todos os cantores no início de seu amadurecimento musical, leigos, mas a rapaziadinha melhorou muito em um ano de trabalho... ta afinadinha, grácil... em alguns momentos pensei em Jesus, nos guias, e pedi desculpas, por sentimentos de egoísmo e orgulho que me corroiam a alma e as entranhas... achei que eu merecia estar novamente no Teatro del Lago, sendo amada, ovacionada, erguida nos braços, recebendo rosas, coisas de diva... mas eu estava ali, passando por uma provação, duríssima de aceitar, que deixa qualquer ego de diva - no meu caso divoneia... dilapidado, agravando-se meu estado depressivo, minha desesperação e solidão... eu trabalho sentada, alguns já sabem... no final fiquei sozinha no espaço, pois que as pessoas subiram para suas aulas... é indescritível a sensação de desastre... a divoneia estava acabada... só faltava estar se embebedando e fumando charuto... acho que nem a "cantora de churrascaria, Singapura", que o Eduardo Dusek descreve, ficou tão arrasada... só não foi totalmente esculhambante pois encontrei um primo da familia de minha mãe, muito querido, e falamos de seus amores, seus filhos... e isso me remeteu a outros exercícios de humildade...
Termino este arremedo desejando tudo de bom pros cantores que dividem palco comigo... faço o possível para que o momento seja sagrado, desde a roda de preparação, desde as palmas para afastar forças negativas...e espero que esses moços e moças confiem em mim... que é um valoroso trabalho, apesar de tudo...

E a saga repetiu-se na sexta-feira, num novo espaço, com outro grupo, ou com a ausência dele...

Tive um diretor onde leciono que recomendava: não está satisfeita, vá procurar outro trabalho... tenho que voltar para o segundasabado agora, tentar uma leitura a quatro vozes... e não posso ter certeza de nada, alguns podem decidir seguir suas vidas. É a Roda da Fortuna, é o Panta Rei de Heráclito, é uma ponte caída no meio do nada...De que vos admirais, perversos? Que é melhor: fazer isso ou administrar a República convosco?

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