quinta-feira, 29 de março de 2012

Contracanto

hoje me chega um menino, doce, doce como algodoeiro
e canta umas coisas de terna graça,
falando das dores de quem tem dores
dos suspiros de quem espera
dos enganos de quem olha uma foto
hoje me chega um menino, doce, doce como algodoeiro
e canta coisas notáveis
de fazer pensar aos jovens dos primeiros romances
dos encontros avessos
das passagens obscuras
dos engodos
das recusas
dos mesmos erros
hoje me chega um menino, doce, doce como algodoeiro
e traz com ele baixo, guitarra, bateria sui generis e craviola
e canta simulando um microfone em punho
hoje me chega esse menino e sua banda
de amplificação improvisada
de repertório ímpar
de par com Love me tender
de mãos com And I love her
de lábios com Close to you
e meu pensamento corre para uma noite,
Misty...
Esse menino vai e enreda meu coração
rádio ouro verde lá dos tempos da rua Acre,
da casinha do meu avô adorado...
Esse filho que não tive toca meu coração paulistano
com sua magreza suave
seu cabelo revolto
com sua capa de inocência indelével
com o som de sua harmônica tímida.
Sem pensar, comemoro o natal de minha cidade
em fino humor branco
na lambreta azul de meu tio...
Passada a hora das classes
ouvindo o contracanto dos backings
eu sonho
como se fora junto a crianças no recreio.
Por um momento confundo minha alegria com aceno amistoso
lá fora faz um frio suportável
e volto para casa
pensando em utilidade pública
com saudades de antigos verões no Agua Verde.

Obrigada: minha cidade natal é meu berço, é meu lar, me deu trabalho
me deu deslisar por suas alamedas
me deu conhecer cantores de tantas cidades
me deu palcos para cantar
me deu meninos doces para compor memórias

e quem conta um conto assim cotidiano...






Um comentário:

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