segunda-feira, 19 de março de 2012

Cada dia é um novo canto

Coisas difíceis de degustar:
Cantar é um processo cerebral, pensado portanto, um casamento bem afinado entre aspectos neurológicos, sensitivos e motores;
Não é um impulso; ou algo que se faz ou não se faz. Todo mundo canta. Todo mundo canta falando, fala cantando.
Ou talvez seja algo, o canto, que acontece por acaso, ou é da natureza, ou dom... ou acontece conforme a exigência emocional de quem canta - se quer chorar, se quer gritar, tirar uma corda, um osso entranhado no pescoço, se quer pedir socorro, pedir amor... e pode ser, sim, uma combinação desses aspectos, a formar artistas, inclusive. Estes se intitulam intuitivos...
Assim como posso falar, posso cantar. Ou ficar calado. É uma questão de escolha.
Cantar, como tudo na vida, carece educere, ou seja, o sujeito encontra em si mesmo e no entorno as ferramentas para manipular a habilidade.
O sujeito se dá conta de que possui uma estrada de uns 25km mais ou menos para percorrer. Avança em sua "sweet charriot" do ponto de partida, um tom grave, ou agudo, e faz o percurso, enfrentando pedras, buracos, curvas, depressões, saliências,  percorrendo a distância total ou trechos dela, fazendo desvios, tomando atalhos. É possivel, sempre, aumentar a quilometragem e a velocidade do percurso. E até modificar o carro, usando das peças originais a acessórios os mais variados.
O dono da voz pode aprimorá-la por seus próprios processos, usando uma pedagogia pessoal. E se entregar e se abandonar a essa prática, a ponto de "prensar a voz" e sair-se plenamente bem sucedido, sem ter necessariamente ouvido as orientações de outrem, quer seja o vizinho a criticar a "última audição de banho", ou um mestre, que lhe prepare o terreno, semeie, cuide da florada e proceda a colheita.
Como tudo na vida, é um processo a percorrer fases, a depender do entorno social. Usaria sossegadamente Piaget e Vygotsky combinados para argumentar.
Há algo mais que uso para apimentar a argumentação: os primeiros cantores foram curandeiros, feiticeiros, lidavam com ervas, plantas e outros flúidos e as vibrações  da voz para interferir no entorno e curar, aplacar a ira do vento, da água, do vulcão, das feras... espantar energias ruins, estirpar a dor, puxar a dor para fora do corpo, aquietar o cérebro que tinha o mundo in natura para compreender. Para afastar o medo da solidão. Para atrair a presa. Para comunincar um fato. Para atrair o companheiro ao enlace. Para cambiar ansia y dolor. Para transformar os homens, a esperança. Para distrair, para dar ritmo ao trabalho repetitivo.
E daqui, dessas primeiras argumentações,  se parte para inúmeras estações no mapa geografico a percorrer.
Quero sugerir o seguinte, para ir aos poucos abarcando todos esses dados históricos, ancestrais:
Murmure, usando canções simples, presentes no seu cotidiano, só pedacinhos dessas canções. Não tenha pressa de mover-se de um tom a outro, brinque de variar a velocidade, do bem lento ao bem rápido, e cante na região aguda, média e grave da voz, nessa ordem.
Use somente um tom de cada vez, e passse do ssss------------uuu-----mmm; do ffffff------uuuu-----nnnnn e do x--------uuuuuu------mmmnnn.
Cante uma  canção nova,  que  esteja preparando.
Anote todas as coisas que conseguir fazer bem, se "ouvindo" sem se criticar irrefletidamente. 
Anote também as dúvidas. Esses relatos, você pode, sim, dividir com alguém mais experiente. 
Geralmente, essa pessoa é eleita por nós...

Um comentário:

  1. Gosto de imaginar a ancestralidade em canto. Fiz um curso de poesia com o Rodrigo Garcia Lopes, há alguns anos, em q ele nos apresentou o texto de Orpingalik, um xamã esquimó: "Canções são pensamentos cantados com a respiração quando as pessoas são movidas por grandes forças e quando a fala ordinária não é + suficiente..." Lindo isso!

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