quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A diva e o vulcão

A natureza apóia a todas as decisões.
Que podem ser perfeitas. Ou podem por tudo a perder.
Se se move porta afora, lá vem ela, a natureza, com sol, vento de lago, luz, perfume gentil.
Se se embrulha num cobertor, lá vem ela, a decisão, com suas nuvens de creme. E chuva.
Os dias vão abrindo novos dias.
Posso passar anestesiada pelos dias, em brumas. Ou aceitar-me viva, plantada no solo da vacação.
Um homem caminha pela orla do lago, adentra a cabana onde me hospedo e, de uns dias pra ca tomo-lhe o rosto nas mãos e  beijo a face em demorado, sonhando-lhe os lábios. Ele não me vê. Creio ser esta a decisão a tomar, expressar os desejos e só.
As decisões e movimentos vem se executando basicamente nos meus pensamentos nos últimos anos. Então por estas vias se consumam os atos, se sentem os toques, se formulam os discursos, enredos  sedutores, encontros delinqüentes, odes alarmantes. Quando o corpo é consultado, ele não sabe o que fazer.
Caem as capas, tombam os cavaleiros, surgem outros no horizonte pregueado de cordilheiras e vulcões.
As paixões emburram, as paixões ferem com goivas. Para que as lavemos com vinho. Completa-se a anestesia. As paixões, que de tão corteses já são fogo fátuo,  obrigam a mente a empunhar o sabre e urrar En garde. Empresto de Atena a convulsão. E o sofrido corpo vai à luta, desguarnecido.

Ou bate em retirada, precipitadamente.
Sobre rodas e sob vinho a sensação é de suicídio iminente. A ponte convida ao vôo. De tola eu nada tenho, não decidiria por morrer de forma tão banal.
A sombra do vulcão na noite brumada e fria lembra o salto de Ismalia, a de Alphonsus. Ser louca é decisão cômoda.
A dor é intensa e mais antiga que o magma.
Nada dos amores elegantes de Barthes, nem dos amores de Santo Agostinho. Tão pouco os amores de Lispector. Amores  da música, para que ela soe.
Cru é o desejo, tosco, sensual, carne, com tal nitidez que se ouvirá, no plano de fundo, os suspiros de narciso diante de água límpida.
No beiral do mirante eu murmuro seu nome. Você não virá. Eu sou das odes, você dos fossos.
Então chega um outro e inesperado, boníssimo cavalheiro, de alcunha Lacerda.
E torna a noite tão doce e serena como um bago de amoras, como ambrosia. Sua voz cálida enxuga minhas lágrimas e aquece meu peito velho. Entre uma e outra frase fraterna, de menino meigo e bem amado, o lord me traz o corpo entorpecido à realidade,qual ela seja, nunca me dou conta.
Eu não pensava em voltar. Voltar parecia aterrador. Escandaloso demais. Não queria saber o que fazem os filhos, os vickings que não tive.
Quando me aproximo, seu nome não está.  Igualmente, saiu da cena a Afrodite sedutora, fresca, cheirando a dália. Nova como angolinha mateira. Amazona destemida, engolidora de fogo. Ouço rumores perto do lago. Um arrepio de tragédia povoa-me as entranhas e destrói em mim a poesia, a fé, a esperança. Sinto nojo. Repulsa. Lamento. Desejo serpentes marinhas. Retiro o desejo. Pode ser a deixa para o clímax de um aspirante a herói disfarçado de monstrengo voraz.
Passam-se dias e noites. A tensão chega a níveis insuportáveis, pelo menos é assim para aqueles que não vivem as coisas do corpo, como eu.
A história fecha seu ciclo quando seu nome me compara com mãe, diante do Lago Esmeralda. Todos os Santos me aplaudem.
Eu que só quero ser mulher, que só quero o reconhecimento da mulher que sou...como posso ser mãe antes disso...
E o que me resta é esperar. Com a carabina carregada.Como Maria Moura. E amar em segredo. Escancaradamente. Berrando às montanhas que amo, e que desejo chegar, pela porta da frente. Consentida.  Sem mãe que me escolte e colha, ela também, os frutos da azaração.
Porquanto os dias tenham sido mansos de beleza nessa turnê. Porquanto a vida seja generosa por me conceder estar onde o amor está. Porquanto haja a presença, o sopro, o pegar a mão.

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